Falta de motivação: como se motivar de verdade
De onde vem a motivação, por que não adianta esperar por ela, quando o dinheiro ajuda e por que uma multa às vezes piora tudo. Com base em pesquisas, não em frases de efeito.
De manhã, o plano estava feito: corrida, relatório e, finalmente, ligar para o banco. Na hora do almoço, fica claro que a motivação não veio hoje. A gente espera por ela como quem espera uma encomenda: “entrega entre 8h e 18h”, celular na mão, e à noite chega o aviso “entrega não realizada, nova tentativa no próximo dia útil”.
A boa notícia é que não precisa esperar. A motivação tem várias fontes, e quase todas você consegue acionar por conta própria. Uma delas é o dinheiro, e com ele a história é mais interessante do que parece.
De onde vem a falta de motivação
Quando nada dá vontade, a causa quase sempre é uma destas:
- A tarefa é grande ou vaga demais. Ninguém tem vontade de “estudar para a prova”, mas “fazer a primeira lista de exercícios” já dá para encarar: um primeiro passo bem pequeno derruba boa parte da resistência.
- O resultado não aparece. Quando o esforço parece ir por água abaixo, a vontade é a primeira a ir embora.
- A meta não é sua. Se a tarefa importa para outra pessoa e não para você, vai ser preciso se convencer toda vez, do zero.
- Nada acontece se você não fizer. Adiar hoje sai de graça, e fazer custa esforço. A escolha é óbvia, e não favorece a tarefa.
- Falta energia. Às vezes, por trás da “falta de motivação” está o cansaço, puro e simples. Se faz três semanas que você dorme cinco horas por noite, nenhuma técnica vai funcionar enquanto você não colocar o sono em dia. Para separar cansaço de preguiça e de apatia, tem uma tabela no texto sobre preguiça.
Um sinal de alerta merece um parágrafo só dele. Se já faz semanas que você não tem vontade de absolutamente nada, nem o que antes dava prazer faz diferença, e o sono ou o apetite mudaram, pode ser depressão, e aí quem ajuda não é a motivação, é um médico. Se aparecerem pensamentos de se machucar, não espere: ligue para o CVV no 188 (gratuito, 24 horas) ou, em emergência, para o SAMU no 192; fora do Brasil, procure o serviço de apoio emocional do país onde você está.
Motivação intrínseca e extrínseca: a diferença, com exemplos
Motivação é o que faz a gente começar uma coisa e não largar no meio do caminho. Costuma ser dividida em dois tipos.
Motivação intrínseca é quando a atividade vale por si só: é interessante, gostosa, importante. É assim que a gente lê o livro favorito ou monta um LEGO, sem precisar de recompensa nenhuma.
Motivação extrínseca é quando você faz por algo que está fora da atividade: nota, salário, elogio ou para evitar problema. É assim que se faz a declaração do Imposto de Renda. Ninguém declara Imposto de Renda por amor, e mesmo assim a declaração sai.
Os psicólogos Edward Deci e Richard Ryan, criadores da teoria da autodeterminação, defendem que a motivação intrínseca se apoia em três pilares: liberdade de escolha, a sensação de que você está indo bem e a conexão com outras pessoas. Se um deles cai, o interesse enfraquece até pelo que a gente ama.
Não existe motivação ruim nessa história. A intrínseca é mais gostosa; a extrínseca é mais confiável onde não há interesse nem vai haver. O problema começa quando uma é confundida com a outra.
A motivação vem depois que você começa
A maior armadilha é esperar que primeiro venha a vontade e depois a ação. Normalmente é o contrário: primeiro cinco minutos de trabalho, depois a vontade de continuar. Por isso, a melhor resposta para a pergunta de como ter motivação soa estranha: comece sem ela.
A professora Teresa Amabile, da Harvard Business School, e o pesquisador Steven Kramer reuniram quase 12 mil registros de diário de 238 funcionários de sete empresas: toda noite, as pessoas descreviam o próprio dia de trabalho. O que mais levantava o humor e a motivação não era bônus nem elogio do chefe, e sim a sensação de avançar num trabalho que parecia importante. Até um passo pequeno contava. E os piores dias eram, na maioria das vezes, aqueles em que o trabalho não andava.
Daí saem duas lições práticas. Primeira: começar por um passo que com certeza vai dar certo, como na regra de começar o hábito por uma versão tão pequena que dá vergonha não fazer. Segunda: deixar o progresso visível. Linha riscada, marcação no rastreador de hábitos, estrela no céu: nada disso é enfeite, é combustível.
Frase motivacional no papel de parede do celular é bonita, mas não dá o primeiro passo por você.
Quando o dinheiro mata o interesse
Em 1971, Edward Deci fez um experimento simples com universitários e um quebra-cabeça. Uma parte recebia dinheiro por figura montada, a outra não. Depois, o pesquisador inventava uma desculpa para sair da sala, e aí vinha a parte interessante: quem tinha recebido dinheiro passava menos tempo livre mexendo no quebra-cabeça do que os outros. A brincadeira tinha virado trabalho, e trabalho sem pagamento ninguém quer fazer.
Mais tarde, Deci e colegas reuniram 128 experimentos e confirmaram o padrão: a recompensa esperada diminui o interesse por uma atividade de que a pessoa já gostava. Nas tarefas chatas, porém, a recompensa não diminuía o interesse, porque não havia interesse para diminuir.
A conclusão é simples: não se pague pelo que você ama. Se você desenha por prazer, não transforme isso num plano de “três desenhos por semana, senão tem multa”.
Quando a motivação financeira funciona
A maior meta-análise sobre o tema juntou 183 estudos feitos ao longo de 40 anos, com mais de 200 mil participantes. O veredito foi uma trégua: a motivação intrínseca prevê melhor a qualidade do trabalho, e os incentivos externos, a quantidade. Em outras palavras, o interesse ajuda a fazer bem-feito, e o incentivo ajuda a fazer, ponto.
Fica mais interessante quando o dinheiro pode ser perdido, e não recebido. Os economistas Roland Fryer, Steven Levitt, John List e Sally Sadoff fizeram um experimento em escolas de Chicago Heights, perto de Chicago. Uma parte dos professores podia receber um bônus no fim do ano se os alunos melhorassem. A outra recebeu o mesmo bônus logo no início, com a condição de devolver se os alunos não melhorassem. As notas de matemática subiram de forma clara só no segundo grupo. O bônus comum quase não fez diferença, embora o valor fosse o mesmo.
Por que perder pesa mais é uma discussão que os economistas ainda não encerraram. Por muito tempo, a conta aceita era que perder dinheiro dói cerca de duas vezes mais do que achar a mesma quantia alegra, mas uma reanálise recente contesta esse número. Já nos experimentos de campo, como o das escolas, o efeito aparece sem que ninguém precise vencer a briga dos números.
A história do cigarro é parecida. Num estudo de 2015 com 2.538 participantes, uma parte recebeu a oferta de uma recompensa por parar de fumar, e a outra, a proposta de colocar US$ 150 do próprio bolso, dinheiro que perderiam se voltassem a fumar. A recompensa foi aceita por 90% das pessoas; a proposta de pôr dinheiro do bolso, por só 14%. Mas quem topou se saiu muito melhor: seis meses depois, 52% dessas pessoas não fumavam, contra 17% entre as que receberam recompensa. Parte da diferença se explica por quem topa um acordo desses: as pessoas mais decididas. Mesmo assim, a lição serve: esse tipo de compromisso funciona para quem tem coragem de assumir um.
Por que uma multa às vezes só atrapalha
Também existe o exemplo contrário, e vale a pena conhecer. Em 1998, os economistas Uri Gneezy e Aldo Rustichini criaram uma multa por atraso em seis creches de Haifa, em Israel: 10 shekels se os pais buscassem a criança mais de 10 minutos depois do horário. Os atrasos não diminuíram, aumentaram: em média, de cerca de 8 para 18 por semana em cada creche. E quando a multa foi cancelada, os atrasos continuaram no novo patamar.
A explicação está no título do artigo deles: “A Fine Is a Price”, ou “uma multa é um preço”. Antes, atrasar significava passar um constrangimento com a professora. A multa transformou o atraso num serviço: paga dez shekels, e a consciência fica limpa.
Para quem faz promessas com valor, fica a lição:
- O valor precisa doer um pouco. Se pagar é mais fácil do que fazer, a promessa vira a compra do direito de adiar.
- A decisão precisa ser sua. A multa das creches foi imposta aos pais. Quando a promessa é sua, quem define as condições é você, inclusive o valor.
- Além do dinheiro, conta a palavra. Uma promessa cumprida não é só estrelas economizadas: é também um motivo para se respeitar.
Motivação financeira no StarDo
O StarDo é um app de tarefas dentro do Telegram em que cada tarefa pode ser reforçada com Telegram Stars. É a mesma motivação financeira dos professores de Chicago Heights: não uma recompensa que você talvez receba, mas estrelas suas, que você vai ter que pagar se a tarefa não sair. As estrelas são compradas com dinheiro de verdade (que moeda é essa e quanto ela custa), por isso uma promessa dessas pesa de verdade.
Nada é cobrado antes. Terminou a tempo: suas estrelas continuam no lugar, e uma estrela nova brilha no seu céu, dentro do app. Não deu tempo: as estrelas prometidas precisam ser pagas em até 48 horas, senão a pontuação de honestidade diminui. O valor, a partir de 5 estrelas, quem escolhe é você, e aqui entra a lição das creches de Haifa: escolha um valor que você teria pena de pagar. Sorte não entra nessa conta: tudo depende só de você, e o melhor desfecho é não gastar estrela nenhuma.
Para quais tarefas a motivação financeira serve
Pelas pesquisas acima, o dinheiro ajuda mais onde não há interesse nem vai haver: relatório, declaração do Imposto de Renda, faxina geral, aquela ligação que você empurra há três semanas, as primeiras semanas de academia, antes de virar hábito. Para as coisas que você ama, a promessa não é necessária e às vezes até atrapalha.
- Faça promessas para ações concretas com prazo: “organizar a papelada até sábado”, e não “virar uma pessoa mais organizada”.
- Comece com uma ou duas tarefas com promessa por semana, e não com uma em cada linha da lista.
- Se a mesma tarefa falha várias vezes seguidas, a culpa não é do valor: está na hora de cortá-la em pedaços menores.
Como escolher o valor, e por que a mensalidade da academia paga adiantado não resolve, está explicado no guia sobre força de vontade e compromisso consigo mesmo.
Motivação para estudar
Estudar é o caso em que os dois tipos de motivação aparecem no mesmo cronograma: a matéria favorita anda quase sem esforço, e com aquela que você não suporta é preciso negociar. De tudo o que vimos até aqui, isto funciona:
- Dividir em passos pequenos. “Estudar para o ENEM” ou “para o concurso” assusta; “fazer uma lista de exercícios” ou “revisar um tema de história”, não. Cada passo fechado dá a mesma sensação de progresso que, na pesquisa de Amabile, mais levantava a motivação.
- Ver o progresso. Risque os temas e as listas que já terminou: quando dá para ver quanto ficou para trás, largar no meio fica mais difícil.
- Não ter vergonha da motivação extrínseca. Talvez o interesse por aquela matéria nunca apareça, e tudo bem. Uma promessa ligada a uma ação concreta (“resolver 10 questões até quinta”) não vai fazer você amar a matéria, mas faz você estudar.
- Não se pagar pelo que já dá prazer. É a lição do quebra-cabeça de Deci: recompensar o que você já gosta de fazer pode apagar esse interesse.
Se a vontade de estudar sumiu há semanas, junto com a vontade de todo o resto, o problema já não é motivação, e a conversa é com um médico.
Perguntas frequentes
Como se motivar quando nada dá vontade?
Escolha uma tarefa de cinco minutos que com certeza vai dar certo, faça e marque como concluída. A motivação costuma aparecer depois do primeiro passo, e não antes. Se isso dura semanas e nada traz alegria, é hora de procurar um médico.
Qual é melhor: motivação intrínseca ou extrínseca?
As duas são necessárias. A intrínseca ajuda a fazer bem o que você gosta. A extrínseca ajuda a fazer o que você não gosta, mas precisa. O principal é não colocar dinheiro em cima do que já é prazer.
Motivação financeira funciona?
Funciona, principalmente em tarefas chatas e quando o dinheiro pode ser perdido, e não recebido. Mas o valor precisa ser perceptível: uma multa pequena demais vira taxa pelo direito de não fazer.
Motivação não é algo que se encontra uma vez e pronto. Basta ter o suficiente para o primeiro passo, e depois o progresso leva você adiante. E para as tarefas em que nada ajuda, existe a promessa que dá dó de quebrar.
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